Quais são as bagagens dos pais?

Os pais (mãe/pai) chegam à maternidade providos de suas bagagens, suas histórias de vida: seus repertórios, suas vivências, seus sentidos, suas intuições, percepções, sensações, conhecimentos e memórias.

Os médicos chegam providos de seus conhecimentos técnicos a respeito das estatísticas de modos de funcionamento, divididos de modo geral em: típicos e atípicos. Dentro das atipias outras categorias que  gerarão quadros nosográficos (da doença), diagnósticos, terapêuticas e prognósticos.

Os professores providos de seus conhecimentos a respeito das etapas do desenvolvimento infantil, seus capacidades, habilidades e competências, baseados igualmente em um funcionamento majoritário, aplicam suas técnicas para ensinar, que atinge a grande maioria (mais uma vez aqui falamos em estatística).

Porém, cabe pensar que todas essas leituras sejam de grande valia a respeito da construção do conhecimento dos sujeitos.

Será que há um conhecimento que seja mais relevante do que o outro? O dos pais? O do médico? O do educador?

Vivemos em um momento da cultura, que por algum motivo, ou vários deles reunidos, o discurso e percepção dos pais tem menor valia diante dos outros.  Essa desvalorização da percepção, da intuição e do conhecimento “não técnico” tem tido repercussões importantes sobre a condição de leitura/interpretação daquilo que nos é individual, que corresponde aquilo que é do sujeito, que foge às estatísticas muitas vezes.

Quanto de apagamento da singularidade da constituição de cada sujeito teremos com esse apreço a destituição dos pais em seus discursos, que não obedecem aos enquadres nosográficos previamente descritos?

Quanto todas as famílias perdem de potência por não darem voz às suas intuições e percepções?

Quando há dois discursos predominantes, ao invés de três, não há um empobrecimento de escuta, interpretação, leitura e apostas para o sujeito?

Não acredito haver um único discurso soberano, isso seria acreditar em autoritarismo do pensamento. Acredito na preciosidade da dúvida. Na ausência de certezas absolutas e na necessidade de apostas constantes nos sujeitos por diversas perspectivas.

Estou como aquele ditado espanhol “yo no creo en las brujas, pero que las hay las hay”.

 

Malka B. Toledano

Fonoaudiologa e Psicanalista

malka@projetonish.com.br

 

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