Muito tem se falado de oferecer autonomia para as crianças. Afinal, do que exatamente estamos falando?

É para deixar as crianças fazerem livremente suas atividades escolares em frente ao computador? Realizarem tarefas?

Organizarem o tempo? Colocarem em ordem de prioridade o que devem fazer? Ou o que querem fazer? Será que as crianças tem condições de se auto-regularem?

Autonomia definida pelo dicionário Aurélio:” aptidão para gerir sua própria vida, valendo-se de seus próprios meios, vontades e/ou princípios. Direito dado a uma nação (país) de governar de acordo com seus próprios. Regimento de leis. Direito ao livre arbítrio que faz com que qualquer indivíduo esteja apto para tomar suas próprias decisões.”

A infância trata-se de um período da vida estruturante, de dependência do outro (adulto) para direcionar e conduzir ações e valores.

Como podemos falar de autonomia infantil?  Trata-se fundamentalmente de u contra-senso.

Autonomia e dependência, de fato, são antônimos. Mas entre um e outro há grande distância. Da dependência total, do bebê recém -nascido à autonomia do adulto, temos muitas etapas intermediárias.

Entre o bebê caminhar autônomo e não caminhar temos: o caminhar com dois apoios, caminhar com um único apoio, até que o bebê possa caminhar sozinho, sustentado apenas por suas próprias pernas.

Isso por uma série de adaptações físicas, ambientais, neurológicas, socais e relacionais.

Não podemos abandonar crianças em frente as aulas online e exigir delas uma condição de se auto-regularem. Essa seria uma aposta fadada ao fracasso em várias frentes.

Penso que, assim como damos suporte ao bebê até que ele possa caminhar livremente, devemos dar suporte às crianças para que possam navegar, aprenderem, se relacionarem livremente, e isso, deve acontecer de forma completa quando tiverem todo o aparato bio-psico-social apto para tais funções, ou seja, quando adultos.

Até lá todas as crianças tem o direito ao cuidado previsto pelo Estatuto da Crianças e do Adolescente. Tomemos o cuidado de não confundir quem sabe mexer com autonomia no computador (no caso as crianças e adolescentes, os Nativos Digitais) com aqueles que sabem que o deve ser feito.

Atrás das telas estamos todos. Mas que nunca sejam apagadas as diferenças de nossas competências. Adultos são adultos. Crianças são apenas crianças.

 

Malka B. Toledano

Fonoaudiologa e Psicanalista

malka@projetonish.com.br

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