A Depressão na Infância e Adolescência não é algo novo, apenas tardou muito para ser incluída devidamente como doença (somente na década de 70) e, assim, finalmente tratada.

Os primeiros relatos de crianças deprimidas são de 1621, por Robert Burton.

Em 1946, Spitz descreve a depressão analítica em crianças separadas da mãe durante seu primeiro ano de vida, sintomas possíveis de serem revertidos caso a relação mãe-bebê tivesse se restabelecido.

A Depressão na Infância e Adolescência pode se apresentar de maneira bem diferente da do adulto , sendo bastante limitante, com grave prejuízo social e escolar. Daí a importância de um diagnóstico precoce e tratamento adequado.

É importante lembrar que muitos adultos deprimidos iniciaram quadros na infância, na maioria das vezes não tratados.

Existe também uma grande e importante questão em relação a tristeza e depressão. Tristeza é algo em geral reativo, que pode passar com algo prazeroso , por exemplo viajar , e costuma ter uma duração e intensidade limitadas.

Já a depressão é acompanhada de outros sintomas importantes além da tristeza como: perda de prazer, alteração de sono, ideias pessimistas entre outras e costuma ter maior duração e intensidade do que em quadros de tristeza. Ao contrário da tristeza, não melhora com situações prazerosas. Sem tratamento adequado, costuma evoluir para quadros mais arrastados e graves.

 

QUAL A POPULAÇÃO MAIS ACOMETIDA?

A prevalência do Transtorno Depressivo Maior em pré-púberes (em torno de 2%) e em adolescente ( 6%).
Em geral é levemente mais frequente no sexo masculino até a adolescência e na vida adulta se torna mais frequente no sexo feminino.

 

DADOS TÉCNICOS SOBRE O QUADRO CLÍNICO

Os transtornos depressivos incluem: transtorno disruptivo da desregulação do humor, transtorno depressivo maior (incluindo episódio depressivo maior), transtorno depressivo persistente (distimia), transtorno disfórico pré-menstrual, transtorno depressivo induzido por substância/medicamento, transtorno depressivo devido a outra condição médica, outro transtorno depressivo especificado e transtorno depressivo não especificado.

 

A DEPRESSÃO

O transtorno depressivo maior, que chamamos popularmente de apenas de depressão, representa a condição clássica desse grupo de transtornos.

Ele é caracterizado por episódios distintos de, pelo menos, duas semanas de duração (embora a maioria dos episódios dure um tempo consideravelmente maior), envolvendo alterações nítidas no afeto, na cognição e em funções neurovegetativas, com remissões interepisódicas.

O diagnóstico baseado em um único episódio é possível, embora o transtorno seja recorrente na maioria dos casos de acordo com o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) de 2013.

 

CARACTERÍSTICAS:

1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação feita por outras pessoas (p. ex., parece choroso). Nota: em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável;
2. . Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (indicada por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas);
3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., uma alteração de mais de 5% do peso corporal em um mês), ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias. Nota: em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de peso esperado;
4. Insônia ou hipersonia quase todos os dias;
5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outras pessoas, não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento);
6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;
7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva e inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meraente autorrecriminação ou culpa por estar doente);
8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar ou indecisão, quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas);
9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio;

Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Sintomas causados como respostas a uma perda significativa (p. ex., luto, ruína financeira, perdas por um desastre natural, uma doença médica grave ou incapacidade) podem incluir os sentimentos de tristeza intensos, ruminação acerca da perda, insônia, falta de apetite e perda de peso podem se assemelhar a um episódio depressivo. Embora tais sintomas possam ser entendidos ou
considerados apropriados à perda, a presença insistência deles requer inevitavelmente atenção clínico baseado na história do indivíduo e nas normas culturais para a expressão de sofrimento no contexto de uma perda.

 

NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

De maneira geral, os sintomas na criança podem diferir bastante do adulto, principalmente nas crianças pequenas. A medida que crescem, passam a apresentar cada vez mais semelhança com a depressão no adulto.

Em crianças pequenas, a depressão até pode se instalar de maneira aguda, com clara mudança de comportamento, mas, em geral, o episódio depressivo se instala lentamente com questões emocionais de longa data.

Também é comum posturas de oposição e desafiadoras, hostilidade, oscilação de humor, irritabilidade e crises de raiva. Esses sintomas trazem prejuízos psicossociais e acadêmicos e, mesmo após o tratamento, algumas questões de atraso podem apresentar dificuldades na retomada.

É comum sintomas físicos como: dificuldade em ganhar peso ou até estatura inadequada para a idade. Ainda insônia ou sono excessivo, agitação ou lentificação psicomotora, cansaço ou perda de energia que ficam evidentes em brincadeiras e questões escolares, sentimentos de menos valia ou de culpa (inclusive com ideias de morte), dificuldade de concentração e consequente queda do rendimento escolar, são sinais deste mal.

 

PRINCIPAIS SINTOMAS POR FAIXA ETÁRIA

CRIANÇAS ATÉ 6 ANOS (PRÉ-ESCOLARES)

– verbaliza menos, mas manifesta seu sofrimento através de desenhos ou brincadeiras de conteúdo depressivo, com idéias de culpa, fracasso e até morte (mesmo que nessa faixa etária a morte não tenha conotação de algo definitivo);
– sintomas somáticos como: dores de cabeça, barriga, cansaço, tontura, medos e irritabilidade;
– alteração de sono e apetite (inclusive alteração na curva de crescimento pela má ingesta alimentar), perda do prazer de brincar ou ir a escola e agressividade.

 

CRIANÇAS DE 6 A 12 ANOS (ESCOLARES)

– relatar humor depressivo, tristeza, apatia, irritabilidade, choro fácil, isolamento social, queda no rendimento escolar, falta de prazer por atividades que gostava, medos, vontade de morrer, alteração de sono e apetite, dificuldade de concentração, , baixa auto estima;
– sintomas físicos como: enurese noturna (xixi na cama), roer intensivamente as unhas, manipulações genitais em excesso, terrores noturnos, crises de choro e de gritos.

Quanto maior a criança, menos físicos ou somáticos serão os sintomas.

 

ADOLESCÊNCIA

– irritabilidade, oscilação de humor, explosões de raiva, queda no desempenho escolar, baixa auto-estima e sintomas semelhantes a depressão do adulto.
– desesperança, culpa, lentificacao psicomotora, isolamento social, tristeza;
– apatia, falta de prazer e choro fácil;
– abuso de álcool e drogas ;
– ideação suicida (se houver tentativa de suicídio a vigilância deve ser redobrada);

Vale lembrar que a irritabilidade e o comportamento agressivo são comuns nessa idade, principalmente em meninos.

 

FATORES DE RISCO

– Ambientais;
– Experiências adversas na infância, como vitimas de abusos e maus tratos;
– Genéticos e fisiológicos;
– Familiares de primeiro grau de indivíduos com transtorno depressivo têm risco 2 a 4 vezes mais elevado de desenvolver a doença que a população em geral;
– 50% a 80% das crianças com o diagnóstico, têm histórico familiar de depressão;
– Doenças como: diabetes, obesidade mórbida e doença cardiovascular são frequentemente complicadas por episódios depressivos,

 

TRATAMENTO

De maneira geral, quadros mais precoces e mais leves, podem ser tratados com
Psicoterapia.

Ja quadros moderados ou graves acabam necessitando de intervenção medicamentosa (com anti- depressivos ), além de um olhar multidisciplinar com terapeuta, família, escola, entre outros.

A depressão na infância e adolescência não é um quadro raro. Em geral, cursa com severo prejuízo acadêmico, social e funcional.

Sendo assim, é importantíssimo que esse transtorno seja percebido pelo entorno: por familiares, escola e profissionais, ou seja, por adultos que estejam próximos das crianças . Assim que percebidas as alterações de comportamento descritas acima, a criança deve ser encaminhada para avaliação de um profissional de saúde mental, especialista nessa faixa etária.]

Quanto antes identificado e tratado, melhor a evolução e menor o prejuízo para aquela criança, adolescente e familiares.

Depressão é doença e tem tratamento.

 

DANIELLE HERSZENHORN ADMONI
CRM SP 101404
PSIQUIATRA DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP)
@psiquiatra_danielle

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