Escreva. Depois, com distanciamento, leia seu texto como se não fosse você que tivesse escrito. Tenha um olhar crítico. Corrija-se. Edite. Apenas depois disse dê um destino a ele.

Veja quantos processos estão implicados nessas frases curtas:

 

  • Primeiro, você tem que ser alguém, e isso já não é pouco! Se constituir como sujeito é um processo que demanda bastante de si e do outro (quem cuida).
  • Ser alguém que lê e escreve, isso significa: ter domínio da norma culta, regras ortográficas e sintáticas. Compreensão de texto. Valores e regras internalizadas.
  • “Fingir” ser outra pessoa para ler com distanciamento e estranhamento o próprio texto, como se fosse a maior novidade do mundo para mim mesmo. Ops! Vamos combinar que isso exige uma manobra simbólica gigantesca. Quase um exercício de empatia e delicadeza para seu leitor que, no caso, é você mesmo simulando ser outra pessoa (é divertido isso!).
  • Autonomia  motora: bom desenvolvimento neuropsicomotor.
  •  Autonomia de pensamento e do discurso, em outras palavras: estar estruturado no aparelho de linguagem e psíquico.
  • Ser autor do próprio texto – implica em ter condições de transformar pensamento e afetos em palavras, de modo que o leitor seja minimamente capturado por esse texto. Isso vale desde mensagens no whatsapp à grandes publicações científicas. Depois organizá-las com coerência e coesão semântica e sintática.
  • A leitura e a escrita são duas atividades distintas, embora complementares tanto orgânica como simbolicamente. Pensando nisso, podemos entender que, embora sejam atividades correlatas, não estabelecem relação direta. Explico. Nem todo mundo que lê muito, escreve bem. Nem todo mundo que escreve bem, lê muito.
  • Para escrever bem, temos que praticar muito. É um exercício, como natação, corrida, ballet. Quanto mais se pratica, mais hábil se torna. Mas só alguns serão a Ana Botafogo (primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro). O mesmo vale para a leitura.

 

Dito tudo isso, vamos aos fatos: escrever e ler são atividades ultra-sofisticadas que envolvem a integração de atividade física, mental em várias camadas de complexidade.

Por fim, vamos ao “frigir dos ovos”, podemos a vida toda apurar nossas habilidades.

Criança, por serem iniciantes em suas práticas na língua, na cultura, com seu corpo e suas relações, ainda engatinham nessas práticas. Estão em pleno processo de aquisições de muitas competências. Não existe criança pronta.  Não existe estrutura definida na infância. Existe um sistema que está em carregamento, “loading”, sabe?

Sobre os adultos, sempre é tempo. Sempre é tempo de aprender surf, alpinismo, andar de bicicleta, costurar, perder o medo de barata, iniciar um processo de análise, yoga e escrever. Tem que se exercitar, praticar, se experimentar. O desenvolvimento não tem hora.

 

Malka B. Toledano

Fonoaudiologa e Psicanalista

malka@projetonish.com.br

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