Uns dos meus melhores amigos da minha vida foi o meu avô. Tínhamos 60 anos de diferença de idade.

Ele trabalhou até seus 89 anos tendo que omitir e, às vezes, mentir sua idade como cantor profissional em corais para casamentos, celebrações e missas. Sim, um judeu convicto que trabalhou no coral das Igrejas depois de trabalhar como concursado na primeira formação do Coral Paulistano, no Teatro Municipal de São Paulo.

Veja, a voz é um fator que carrega as marcas do envelhecimento. Mas ele desejava cantar, ele amava cantar, para isso cuidava de sua voz, do corpo, da alimentação, do sono. Sabia sobre o futebol, a política, os lançamentos do cinema. Jogava cartas, adorava jogar tranca. Nas reuniões de família falava com fluência o Ídiche (dialeto dos judeus vindos do ocidente). Contador de piada. Elengatérrimo, sempre vestido com decoro.

Toda manhã ligava seu radinho no banheiro. Escutava as notícias durante o banho. Fazia a barba com um capricho e com uma tranquilidade que parecia um espetáculo. Eu me sentava no banquinho, no canto do banheiro, para assistir. Depois lavava os óculos. Ele tinha uma técnica para não riscar as lentes e me narrava enquanto fazia. Desodorante. After shave. Impecável saía do banheiro exalando perfume, higiene, auto-estima, auto-cuidado, informado, vigoroso e leve.

E foi assim até meses antes de adoecer e falecer.

Certa vez, estava com uma dor na perna. Foi ao médico, que diante dos dados empíricos do paciente (sobretudo a idade), sugeriu que meu avô fizesse uso de bengalas, ao que ele respondeu: “doutor, como vou subir no ônibus segurando o guarda-chuvas e a bengala? ”. O médico, espantado diante do relato que meu avô subia com autonomia no ônibus (como ele gostava da sua autonomia, como gostava de andar de ônibus), suspendeu a receita.

Quando ele faleceu muito amigos e colegas de profissão foram homenageá-lo no cemitério. Escutei um bochicho em uma roda de cantores que apontavam para a data de nascimento na placa. Apenas nesse dia souberam a real idade do meu avô e não acreditaram. Ele sempre se apresentou com dez anos a menos.

Em nossas conversas na cozinha em torno da mesa, com aquele café da minha avó servido no copinho, ele me confessou diversas vezes que se soubessem da idade real, ele perderia oportunidades de trabalho. Ninguém na idade dele mantinha esse ofício. A voz envelhece. Imagina o único baixo do coral perder a voz, ou adoecer, ou ter qualquer vulnerabilidade em função da idade? Para se manter ativo teve que mentir.

O corpo fica pesado, o desejo de se movimentar não é acompanhado pelo corpo moroso. Corpo pesado, apesar de todos os cuidados. Mente aberta e leve. Esse foi o equilíbrio de envelhecimento que pôde tapear tanta gente. A atividade não correspondia a idade, porque muitas vezes a função está descolada das amarras concretas do corpo.

A voz, por exemplo é uma função que acontece na interface entre: corpo, linguagem e desejo.

Pensando que somos uma composição desses três elementos e que dois deles não tem um cronômetro, uma métrica como tem o corpo, confere ao nosso destino investir nesse campo do não mensurado: mente clara, leve, desejante e boa longa vida!

 

Malka B. Toledano

Fonoaudiologa e Psicanalista

malka@projetonish.com.br

 

nish

Author nish

Mais posts de nish

Deixe uma resposta