Dietas da moda, procedimentos estéticos realizados sem mesura, medicamentos sendo usados indiscriminadamente com fins estéticos, exercícios físicos excessivos (e indicados pela blogueirinha). Em nome do que??? Da insatisfação eterna que temos vivido com o corpo. Tempos estranhos, sem dúvida.

Como side order, uma patrulha alimentar severa, que deixa de lado o prazer de comer e o contato com o próprio corpo (com vontades, por exemplo) e com as sensações internas (dentre outras, a fome e a saciedade). Não por acaso dietas alimentares severas, malucas e muito restritas ganham fama. Perde-se a autonomia alimentar e a possibilidade de condução autoral do próprio corpo.

Esta é, sem dúvida, uma época marcada pelo império das imagens, causa e consequência das redes sociais. Elas deixam ainda mais patente a sensação de que nos falta algo sempre: a barriga tal, o nariz assim, a viagem assado, a roupa, o mais recente celular, o sofá, a batedeira planetária de última geração, e por aí vai.

Vive-se uma insatisfação eterna, acirrada pela inveja (de tudo que o outro tem e você não).  E um sentimento de impotência que só pode ser preenchido com as bengalas narcísisicas – aquelas “bengalas” e “muletas” que nos ajudam a sustentar nossas faltas. E onde nós apoiamos.

Sabe de uma coisa? Peço desculpas, mas vou voltar ao começo do texto. Penso que temos usado nosso corpo (ou nossa imagem) como uma bengala narcísica para tentar suprimir nossas faltas. Comum ouvir de pacientes: quando eu emagrecer vou conseguir outro emprego  , quando eu fizer a lipo, vou começar a namorar, quando eu começar a correr vou me sentir bem, só quando eu comer assim ou assado vou ser feliz, e tantos outros exemplos. Faz sentido?

Temos deixado de considerar o corpo como veículo de potência, como meio de explorar e desbravar o mundo. Como nossa morada, como nosso companheiro mais íntimo. Fizemos dele um inimigo. Que muitas vezes, pode ser mortal.

O que me leva a pensar que o corpo está sendo usado como portador de uma mal estar que não pode ser psíquico. Explico: o corpo denuncia algo que não pode ser pensado pela mente. Que de tão difícil, de tão dolorido, de tão insuportável, torna-se impensável. E escoamos para o corpo. O corpo vira uma via de expressão.

Por isso e por outras que a psicanalise é tão íntima das questões com o corpo, com a imagem e com a alimentação. Íntima sobre estas questões e sobre tantas outras advindas desta temática. Aliás, diz a psicanálise que a alimentação (e os significados afetivos que colamos nela) tem papel essencial na constituição psíquica. É a base da relação mais primitiva com a mãe. Relação esta que levamos como protótipo, como modelo para o mundo, para as nossas futuras relações (com a gente mesmo e com os outros).

Bom, já viu que tem muito papo ainda. E ainda nem falei das ambiguidades sócio-culturais  desta nossa época. Não parece paradoxal que numa sociedade que pede corpos tão doentemente emagrecidos, oferte tanta abundância e excessos alimentares???? E para entender tudo isso, só há um jeito: entender-se, revisar-se, revirar-se, abrir-se a questionamentos. Então, deixo aqui um sugestivo convite: faça terapia!

Patricia Gipsztejn Jacobsohn

patriciagips@hotmail.com

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