TIRA AS CALÇAS E PISA EM CIMA

Sem querer ser saudosista, apenas remetendo às minhas memórias de infância, quando uma criança e ficava furiosa em motivo aparente ou compreensível para os adultos, me permitiam ficar nesse estado de nervos e diziam: “está com raiva, tira as calças e pisa em cima”.

Esta era uma frase recorrente, assim como essa: “vai reclamar pro bispo”. Todas essas frases eram produzidas diante da mesma cena: o adulto diante de uma revolta ou birra da criança frente a algo que considerava inevitável. Algo que o não tinha como ser revolvido e o desfecho era esse: uma manifestação afetiva de descontentamento sem qualquer esforço extra-humano do adulto de transformar aquela situação. Estava triste? “Até casar passava”. Se machucou? Vamos cuidar mas “se acalme, até casar passa.”

De fato, muitas das tristezas até eu me casar passaram. Certamente a maioria delas. Outras não. O que fica marcado? O que é irrelevante?

Sim. Há tristezas e aborrecimentos tipo “fast-food”, coisa rápida. Acontece. É efêmero. Não cria marcas nem cicatrizes. São manifestos advindos de frustrações por perdas, ou inveja (crianças tem inveja, e tudo bem!), ciúmes, raiva, fome. E como são importantes essas manifestações.

As crianças são dotadas de todo o tipo de afeto, como  nós adultos, mas com muito menos filtro (pela próprio condições da infância: menos repertório e experiências de vida) e menos condições de linguagem. Ou seja, sentem, não conseguem traduzir ainda sentimentos em palavras, porque isso exige sofisticação simbólica, ou em uma conversa civilizada. Assim atua no corpo com choros, xiliques, acessos de birra, raiva, irritação, tudo à flor da pele.

Na criança e no adolescente essa “pele psíquica e de linguagem” ainda é mais fina, quase transparente. Não é “cascuda” como dos adultos. Tem menos filtro. Mais comunicação entre o mundo interno e externo. E será que devemos abafar essa comunicação quando se trata de manifestações afetivas que não “convém” para nós adultos? Será que podemos ou devemos impedir essas manifestações? E quais seriam os efeitos desse “abafamento” de sentimentos considerados hostis? Quem não manifesta, não sente? Como conduzir e trabalhar esses afetos? Como e quando o sentimento pode virar palavra?

Essas são questões importantes de pensarmos. Podemos abafar a tristeza? Será que as que ficaram em mim, até “depois de eu casar” foram tristezas abafadas? Sem vazão? Sem fluxo? E essas, em algum momento tem potencial depressivo?

Afinal, “sempre rir, sempre rir, pra viver é melhor sempre rir”?

 

Malka B. Toledano

Fonoaudiologa e Psicanalista

malka@projetonish.com.br

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